“Eu Te Dou Abrigo… Mas Por Três Dias Você Fica Aqui”
A chuva caía como se o céu quisesse apagar o mundo.
Sofía avançava cambaleando pela estrada de terra que levava ao Vale Escondido, com os lábios rachados, as mãos escondidas em luvas grossas demais e as botas encharcadas roubando seu calor a cada passo. Não carregava nada além da roupa do corpo — um casaco pesado e a lembrança amarga da última porta que havia chamado de lar batendo na sua cara.
A voz do padrasto ainda ecoava no peito, fria e satisfeita:
— Esta casa é minha. Sua mãe morreu. Você não é nada pra mim. Some.
Armando Salazar tinha entrado na vida da mãe dela como quem entra sorrindo numa sala bem iluminada, fingindo amor… até decorar cada canto da rotina, cada documento, cada fraqueza. Depois que a mãe de Sofía morreu, ele ficou com tudo: a casa, o carro, a conta bancária, e até os “amigos” que de repente decidiram não se envolver.
E naquela manhã, quando o aviso de despejo chegou com uma assinatura que Sofía sabia não ser verdadeira, ela entendeu: Armando não queria apenas expulsá-la de casa.
Queria apagá-la do mundo.
A tempestade engrossou. A noite desceu cedo, cinzenta, esmagando as árvores e congelando o ar. Sofía não enxergava dois metros à frente. E, pela primeira vez, sentiu um medo cru — não um medo bonito de filme, mas aquele medo que sobe do estômago e sussurra que você pode morrer ali… e ninguém vai notar.
Ela tropeçou numa raiz escondida e caiu de joelhos. O impacto arrancou seu fôlego. Por um segundo, pensou em fechar os olhos e desistir.
“Morrer”, a palavra veio como gelo.
Mas então ela apertou a mandíbula, como se tivesse prometido algo à mãe — mesmo sem lembrar quando.
— Eu não vou dar essa satisfação… — murmurou, erguendo-se com a ajuda de um galho.
Foi quando viu, entre as árvores, uma coluna de fumaça subindo. E logo abaixo, uma luz amarela tremendo no escuro.
Uma cabana.
Sofía se arrastou até lá, apoiando-se em troncos, com as pernas prestes a ceder. Bateu na porta.
Uma vez.
Duas.
Três.
Nada.
— Por favor… — a voz saiu fraca, quebrada. — Me ajuda…
Ouviu o clique de uma tranca. A porta se abriu com um rangido.
No batente surgiu uma figura enorme: ombros largos, barba fechada, olhos fundos, mãos calejadas. Ele a encarou como se a tempestade tivesse trazido um problema, não uma pessoa.
— O que você quer? — a voz dele era grave, áspera.
Sofía tentou responder, mas os lábios não obedeceram.
— Frio… eu tô com frio…
E a escuridão caiu sobre ela como um cobertor.
Quando acordou, estava enrolada em lã grossa diante de uma lareira viva, estalando e aquecendo a pele aos poucos. A cabana era simples e sólida: madeira escura, mesa pesada, uma cozinha pequena e uma cama grande ao fundo. Cheirava a fumaça de lenha e café forte.
O homem estava a alguns passos, segurando uma caneca de metal. Observava Sofía sem sarcasmo, mas com algo mais antigo no olhar — como se a vida tivesse cansado de fingir.
— Você tá viva — disse, sem emoção, como quem constata um fato.
Sofía engoliu em seco. Sentiu os pés quentes; as roupas molhadas estavam penduradas. A vergonha e o medo vieram juntos.
— Obrigada… você salvou minha vida.
— Ainda não. A tempestade tá piorando. Se você ficasse lá fora…
Ele parou. Não precisava terminar.
— Quem é você? E o que fazia no meu caminho?
Sofía apertou a manta no peito. Mentir parecia inútil. Aquele homem tinha um olhar que enxergava mentira como lobo fareja sangue.
— Meu nome é Sofía… meu padrasto me expulsou. Minha mãe morreu… e ele falsificou documentos pra ficar com a casa. Eu… eu não tinha pra onde ir.
O homem ouviu em silêncio. Depois se levantou e colocou uma caneca fumegante diante dela.
— Bebe. Você tá congelando por dentro.
Ela tomou um gole. O café era amargo, forte, como se puxasse a alma de volta pro corpo.
— E você? — Sofía perguntou. — Qual seu nome?
Ele hesitou, como se o nome fosse uma porta que ele não queria abrir.
— Júlio. Júlio Mendoza.
Outra pausa.
— Não precisa ter medo. Eu não vou te machucar. Mas também não posso… — ele procurou as palavras. — Não posso virar abrigo de qualquer um sem regra. Aqui… a solidão vira um bicho.
Sofía sentiu o coração apertar. Ela conhecia o preço de estar vulnerável no mundo.
— Eu posso trabalhar. Limpo, cozinho, corto lenha… qualquer coisa.
Júlio deu uma risada curta, sem humor.
— Eu me viro sozinho há anos. Não preciso de empregada.
Ele a observou por um segundo a mais, como se lutasse consigo mesmo.
— Mas você precisa de teto. Então… três dias.
Sofía franziu a testa.
— Três dias?
— Eu te dou abrigo, comida, calor e proteção até a estrada abrir. Você fica três dias e me ajuda no que der: lenha, água, comida…
Ele respirou fundo, como quem confessa algo que odeia admitir.
— E à noite… só… não some. Fica aqui. Não preciso de nada além de um outro fôlego na escuridão.
Sofía ficou imóvel. Ela esperava um “acordo sujo”. Mas o que ouviu era estranho de outro jeito: um pedido humano, quase desesperado, de não ficar sozinho.
Ainda assim, o medo não sumiu.
— E se eu me arrepender?
— A porta não tá trancada por fora — Júlio respondeu. — Se quiser sair e morrer lá fora, eu não impeço.
Mas se ficar… fica sob meu teto, minhas regras: não sai na tempestade, não anda pela mata e não mexe nas minhas coisas.
Sofía engoliu o orgulho. Não tinha opção.
Na primeira noite, ele deu uma camisa limpa e indicou um banheiro pequeno. Sofía se viu no espelho: pálida, olheiras profundas, o olhar de quem tinha sido arrancada do próprio chão.
“Só sobrevive”, disse pra si mesma.
Quando voltou, Júlio já estava na cama, olhando o teto como se dormir fosse trabalho. Sofía deitou ao lado, rígida, sem encostar.
Lá fora, o vento uivava como animal ferido.
— Não treme — ele murmurou na escuridão. — Eu disse que não vou te fazer mal.
A mão grande dele tocou a mão dela. Não era romance. Era necessidade crua, humana: alguém confirmando que o outro existia.
Sofía chorou em silêncio, sem entender por quê. Talvez porque, depois de tanta humilhação, aquele gesto simples lembrava que ela ainda era gente.
— Eu só queria sentir que alguém tava aqui — Júlio sussurrou. — Só isso.
E naquela noite, não houve promessas. Só respiração. E, pela primeira vez em dias, Sofía dormiu.
Na manhã seguinte, a casa cheirava a café e tabaco. Júlio falava pouco, mas o pouco que dizia era verdadeiro. Sofía começou a ajudar: lavava pratos, varria, dobrava mantas, tentava não ser peso.
Até que viu, numa mesinha ao lado da cama, um porta-retrato virado pra baixo. A curiosidade cutucou.
Ela virou.
Na foto, um Júlio mais jovem sorria ao lado de uma mulher loira e um bebê enrolado em cobertor. Família.
O peito dela apertou.
A porta abriu de repente. Júlio entrou com lenha e água escorrendo do casaco. Seus olhos caíram na foto nas mãos de Sofía, e o calor da manhã quebrou.
— Não mexe nisso — ele disse baixo, duro.
— Desculpa… eu… caiu…
— Não mente. — Ele se aproximou. — Queria saber por que um bicho como eu guarda foto?
Sofía queria recuar, mas se obrigou a ficar.
— Eu só… pensei que você também já teve alguém.
Júlio respirou pesado. A raiva dele era dor com armadura.
— Eu tive. Esposa. Filho. Uma avalanche levou os dois. Eu fiquei. Só isso.
Sofía sentiu uma compaixão tão grande que doeu.
— Isso não é pena — ela falou firme. — É porque ninguém merece apodrecer sozinho dentro do próprio luto.
A expressão dele vacilou. Por um segundo, o homem gigante pareceu só um sobrevivente cansado.
Na segunda noite, Júlio contou, em pedaços, o que tinha acontecido. E quando a voz dele falhou, Sofía não fez discurso. Só encostou, abraçou, deixou que ele tremesse sem vergonha.
E Júlio, pela primeira vez em anos, chorou sem esconder.
No terceiro dia, o céu amanheceu mais claro. O vento parecia ter perdido força.
— Hoje a estrada pode abrir — Júlio disse. E aquilo caiu como sentença.
Sofía tentou sorrir, mas a tristeza veio junto. Ela não tinha pra onde ir — e, mais assustador ainda, já tinha encontrado ali um lugar onde conseguia respirar.
Mais tarde, no galpão, enquanto pegavam lenha, Sofía viu dois olhos amarelos entre as árvores.
Um lobo.
O animal avançou devagar. Sofía congelou. Júlio puxou ela pra trás.
— Devagar… pra trás — ordenou.
Sofía recuou, mas escorregou e caiu. O lobo saltou.
Júlio se jogou na frente, colidiu com o bicho no ar. Rolaram no chão numa luta brutal. O lobo buscava a garganta dele.
Sofía viu um tronco pesado ao lado. Agarrou com as duas mãos e golpeou.
Uma vez.
Duas.
O lobo uivou e fugiu mancando mata adentro.
Júlio ficou de joelhos, ofegante, o braço ferido, sangue no canto da boca. Sofía correu até ele.
— Você tá bem?
Ele a examinou primeiro, como se a própria dor não importasse.
— Eu… tô. E você?
— Eu tô… — ela sussurrou. — Mas você…
Sofía limpou o ferimento dele com calma, improvisou uma faixa. Júlio a olhava como se tivesse visto outra pessoa nascer ali.
— Você me salvou.
— A gente se salvou — ela corrigiu.
Naquela noite, com a tempestade vencida, veio o silêncio mais difícil: o da despedida.
Júlio, fiel ao combinado, colocou um pequeno envelope sobre a mesa.
— É dinheiro… pra você recomeçar.
Sofía encarou o envelope e a humilhação explodiu.
— Eu não sou coisa pra ser comprada, Júlio.
Ele se levantou rápido, com os olhos cheios de algo que ele não sabia dizer.
— Eu sei… por Deus, eu sei. — Ele segurou os braços dela com cuidado. — Eu só… não consigo te imaginar voltando praquele frio, sozinha. Isso me destrói.
As lágrimas vieram quentes.
— Então não me manda ficar — ela sussurrou. — Me pede.
Júlio fechou os olhos, como se a frase fosse ao mesmo tempo alívio e medo.
— Eu não posso… a montanha já tirou tudo de mim.
Sofía encostou a testa no peito dele.
— Seu medo não pode ser maior que seu coração. Eu não sou seu passado, Júlio. Eu sou seu agora.
E, como quem finalmente solta a corda depois de anos, ele cedeu.
— Fica… por favor.
E naquela noite, não existiu “acordo”. Existiu escolha.
As semanas passaram. O vento virou brisa. A cabana mudou: o silêncio ganhou risos pequenos, cheiro de pão, passos de dois pares de botas.
Sofía começou a juntar forças. Júlio começou a falar mais. E, quando ela decidiu enfrentar Armando, ele não tentou impedir — só disse:
— Eu vou com você.
No Vale Escondido, Armando apareceu com o sorriso de dono do mundo.
— Sofía! Que surpresa… eu tava preocupado.
— Você me expulsou — ela respondeu, firme.
Armando olhou pra Júlio e tentou debochar.
— Ah… fugiu com um selvagem?
Júlio não gritou. Não ameaçou. Só ficou ali, enorme e calmo, como parede.
Armando perdeu o tom.
Dias depois, Sofía, com ajuda de um advogado do Vale e com os documentos que conseguiu recuperar, provou a fraude: assinaturas falsificadas, transferência ilegal, manipulação do inventário.
Armando foi denunciado e, pela primeira vez, ficou sem o escudo da mentira.
A casa voltou legalmente para Sofía.
Mas quando ela parou diante daquela porta antiga, não sentiu mais lar.
Seu lar era a montanha.
Voltou com Júlio. E, de mãos dadas, os dois entenderam que amor não tinha começado com romance, mas com abrigo, presença e coragem.
Meses depois, numa manhã de primavera, Sofía segurou a mão de Júlio e colocou a outra sobre o próprio ventre.
— A gente vai precisar de um quarto a mais…
Júlio caiu de joelhos no chão úmido, como um homem que reaprende a acreditar em milagre. Encostou a testa ali, chorando sem vergonha, como quem finalmente encontra futuro.
E a história deles — que começou com neve e medo — terminou com sol e recomeço.
Não perfeita. Mas verdadeira.
Fim.

