“O Plano Frustrado da Mansão Herrera”
A noite na Cidade do México tinha aquele sabor amargo que só conhecem aqueles que dormem nas ruas. O vento soprava forte, carregando cheiro de gasolina e a umidade de uma chuva que insistia em não cessar. Eu, Mateo, um garoto de doze anos que aprendeu mais nos becos do que em qualquer escola, me escondia entre as sombras.
Abracei-me a um contêiner de lixo, tentando ganhar um pouco de calor. Meus pés estavam dormentes, e meu estômago roncava lembrando-me de que não comia nada o dia todo. De meu esconderijo, podia ver a mansão da Colonia Polanco que dominava a quadra. Um verdadeiro forte de luxo: grades de ferro, luzes douradas iluminando o jardim e janelas tão perfeitas que pareciam espelhos de outro mundo.
De repente, um movimento estranho quebrou a monotonia da noite. Meu instinto, afiado por viver nas ruas, me alertou. Três homens vestidos de preto saltaram a grade lateral com uma agilidade suspeita. Moviam-se como sombras, usando apenas pequenas lanternas para não serem vistos.
—Depressa —sussurrou um deles, com voz fria e urgente—. A senhora foi clara: tudo tem que estar pronto antes das oito.
A palavra “a senhora” ficou gravada em minha mente. Aqueles não eram ladrões comuns. Carregavam uma caixa de ferramentas pesada e um rolo de fita amarela industrial. Pareciam profissionais seguindo ordens específicas.
Aproximei-me da parede do garagem, prendendo a respiração até doer. Pude ouvir o eco de suas palavras entre as placas de metal.
—E o sistema de alarme? —perguntou o segundo, mais robusto.
—Desativado. A senhora pagou uma fortuna pelos códigos. Quando ele chegar, acenda as luzes e abra a porta da garagem, tudo explodirá. Parecerá um acidente doméstico. Quando os bombeiros chegarem, estaremos longe.
“Acidente.” Aquela palavra ecoou como um tiro. Um cheiro doce e pesado começou a se espalhar pelo ar. Gasolina? Não. Gas natural, concentrado, mortal. Eu não sabia nada de engenharia, mas reconhecia o cheiro do perigo. No meu bairro, já vi famílias inteiras desaparecerem por descuidos que ninguém percebeu a tempo.
O medo me pedia para ficar quieto, para me encolher mais na chuva e deixar que o mundo dos ricos se destruísse sozinho. Mas a memória da minha mãe, sua voz me dizendo que a pobreza não era desculpa para a covardia, me deu coragem.
Corri pela chuva, atravessando poças, coração batendo forte. “Não pode entrar. Se ele entrar, será a morte dele”, repetia como mantra. Três quarteirões à frente, vi os faróis de um carro preto de luxo: Julián Herrera, o magnata das revistas que eu usava como abrigo do frio.
Sem pensar, joguei-me na frente do carro. O freio chiar foi ensurdecedor. O motorista, um homem de ombros largos, desceu furioso.
—Você é louco, garoto? Quase te mato! —gritou, agarrando meu braço.
A porta traseira se abriu lentamente. Julián saiu, terno escuro impecável, relógio brilhante mesmo sob a chuva. Seus olhos eram profundos e cansados.
—O que está acontecendo aqui? —perguntou, com autoridade que me fez tremer.
—Não entre na sua casa! —gritei, ignorando a dor—. Há homens no seu garagem. Sua noiva… ela os contratou. Querem fazer parecer um acidente. Há gás por toda parte. Eles vão te matar!
O motorista riu, desdenhoso. —Senhor, é só um garoto de rua. Histórias inventadas para pedir dinheiro ou abrir a porta para roubos.
Julián me olhou fixamente. Não era desprezo, era análise. Observou meu rosto sujo, roupas encharcadas e o desespero sincero nos meus olhos.
—Como sabe quem sou? —perguntou.
—Todo México sabe quem você é —respondi, tremendo—. Mas se entrar agora, não verá amanhã.
Ele pegou o celular e chamou seu chefe de segurança pessoal. Pediu que revisassem os sensores remotos da casa. O silêncio que se seguiu foi eterno. O rosto de Julián, antes cético, empalideceu quando recebeu a resposta: o sistema de alarme havia sido desativado manualmente de dentro há trinta minutos.
Minutos depois, especialistas em segurança e explosivos cercaram a propriedade. Encontraram os três homens tentando fugir pelos fundos. E algo pior: a válvula de gás principal manipulada para explodir ao acionar a luz da garagem.
O mais doloroso não foi o plano, mas quem o arquitetou. Sofía, a mulher com quem Julián ia se casar em um mês, organizou tudo para herdar a fortuna antes de ele assinar um novo contrato pré-nupcial. Foi capturada em um hotel de luxo, esperando a notícia da “tragédia”.
Naquela noite, Julián não entrou em sua casa, mas entrou na minha vida. Ajoelhou-se diante de um garoto de rua, e disse suavemente:
—Você salvou minha vida, Mateo. Nunca esquecerei uma dívida assim.
A partir desse dia, minha vida mudou. Não apenas porque Julián cuidou da minha educação e me deu um teto, mas porque aprendi que a verdade, mesmo dita pela voz mais pequena, pode derrubar os planos mais sombrios. A mansão Herrera permanece de pé, mas a sombra da traição daquela noite ficará para sempre na história da cidade.

