“Por favor, não me machuque… estou ferida”

— ela implorou. E a atitude daquele pai solteiro mudaria tudo.

Por favor… não me machuque. Eu não consigo andar. Já me tiraram tudo…

A voz de Valentina se partiu enquanto ela tentava se arrastar encostada na parede de tijolos do beco. A chuva caía forte, misturando-se às lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Suas mãos tremiam ao tentar se proteger da silhueta masculina que se aproximava.

Senhora, calma. Eu não vou lhe fazer mal.

Diego levantou as duas mãos e parou a cerca de dois metros dela. A mulher à sua frente parecia em choque. O traje executivo estava encharcado e sujo, um dos saltos quebrado pendia do pé machucado.

Eu… eu não consigo ver direito… — ela murmurou.
Piscou várias vezes, mas tudo continuava borrado.
Levaram meus óculos… por favor…

Papai, ela está chorando…

A voz infantil de Sofia, vinda da entrada do beco, atravessou o barulho da tempestade.

— Fica aí, meu amor. Liga para o 190, tá bem?

Ao ouvir a palavra polícia, Valentina se encolheu ainda mais. O tornozelo latejava com uma dor que a deixava tonta.

Trinta minutos antes, ela era Valentina Herrera, CEO da Farmacêutica Azteca.
Agora, era apenas uma mulher ferida, abandonada num beco escuro, implorando misericórdia a um estranho.

— Meu nome é Diego. Sou segurança aqui da região.
Ele tirou a jaqueta com cuidado.
— Só quero ajudar.

Não… não me toque…

— Não vou tocar. Só vou colocar isso sobre a senhora. Está muito frio.

A jaqueta pousou levemente sobre seus ombros.
Cheirava a sabonete barato e café.
Cheirava a… proteção.

Fui assaltada… — ela disse entre soluços.
— Eram três homens… me empurraram… meu tornozelo…

— Já passou. Agora a senhora está segura.

— Você não entende… amanhã eu tenho uma reunião importante…

Ela se calou.
O que importava o conselho administrativo se ela sequer conseguia ficar de pé?

— Papai, o moço do telefone disse que a ambulância chega em quinze minutos.

— Muito bem, princesa. Agora pega o guarda-chuva vermelho no carro.

Valentina tentou focar o rosto de Diego, mas só via uma forma indefinida. Ainda assim, sua voz era calma, firme… diferente da de Rodrigo, seu ex-marido que gritava; diferente dos homens do conselho que ameaçavam. Aquela voz não exigia nada. Apenas acolhia.

— Eu preciso ir… — ela murmurou, tentando se levantar.

Um grito escapou quando o tornozelo falhou.

— Desse jeito não dá para andar.

— Você não entende… se me virem assim…

A humilhação doía mais que a fratura.
Valentina Herrera não pedia ajuda.
Valentina Herrera não chorava em becos.

— Aqui está, papai!

Sofia voltou com o guarda-chuva vermelho. Os olhos grandes da menina observavam Valentina com curiosidade e preocupação.

— Obrigado, princesa.
Ele se virou para a filha.
— Quer dizer seu nome para a senhora?

— Meu nome é Sofia. Tenho sete anos. Por que você está chorando?

— Porque o pé dela dói, meu amor.

— Quando eu me machuco, meu papai canta pra mim. Quer que eu cante pra você?

Apesar de tudo, Valentina sentiu os lábios se curvarem num sorriso fraco.

— Você é muito doce…

— Minha mamãe mora no céu. Papai diz que ela cuida da gente.
Talvez ela cuide da senhora também.

O coração de Valentina se apertou. Aquela menina havia perdido a mãe… e ainda assim oferecia consolo a uma desconhecida.

— Desculpe, ela fala bastante — disse Diego, meio sem jeito.

— Não… está tudo bem.
Valentina respirou fundo.
— Eu sou Valentina.

— Prazer, Valentina. A ambulância já está chegando.

— Eu não posso ir para um hospital público… — ela deixou escapar, antes de pensar.

Soou exatamente como a executiva arrogante que todos diziam que ela era.

— Eles vão levá-la para onde for preciso.

— Não tenho nada… levaram minha bolsa, meu celular, meus documentos, cartões…

— Isso a gente resolve depois.

— Você não entende… não tenho como provar quem eu sou. Não tenho como pagar.

Diego ficou em silêncio por alguns segundos. Então tirou da carteira gasta algumas notas amassadas.

— Tenho trezentos pesos. Não é muito, mas…

— Eu não posso aceitar seu dinheiro.

— Não é caridade. É um empréstimo.

— Você nem me conhece…

— Sei que está machucada. E sei que precisa de ajuda.

A ambulância chegou minutos depois. Enquanto os paramédicos a colocavam na maca, Valentina segurou o braço de Diego com força.

— Obrigada… você não faz ideia do que isso significa pra mim.

— Cuide-se. Minha filha e eu estaremos bem.

No hospital, exames confirmaram uma fratura no tornozelo e fortes escoriações. Pela primeira vez em muitos anos, Valentina desligou o telefone corporativo e deixou que o mundo esperasse.

Dois dias depois, usando muletas, ela pediu alta antecipada.

Mas não foi para casa.

Foi ao pequeno posto de segurança onde Diego trabalhava.

Ele quase deixou o café cair quando a viu.

— Valentina? Você devia estar descansando.

— Eu sei… mas precisava vir.
Ela respirou fundo.
— Você me ajudou quando eu estava no chão. Quero retribuir.

Ela entregou um envelope com documentos.

— O que é isso?

— Uma bolsa de estudos para a Sofia. Escola, cursos, tudo garantido até a faculdade.
E… um contrato para você. Segurança-chefe da minha empresa, com horário flexível.

Diego ficou sem palavras.

— Não fiz aquilo esperando nada.

— Eu sei.
Ela sorriu.
— É exatamente por isso que você merece.

Sofia apareceu correndo e abraçou Valentina pela cintura.

— Você voltou!

— Voltei, sim.

Naquele momento, Valentina entendeu algo que nenhum conselho, nenhum lucro, nenhuma fortuna havia lhe ensinado:

Às vezes, a maior riqueza aparece quando você perde tudo.
E a verdadeira força não está em nunca cair…
mas em reconhecer quem estende a mão quando você está no chão.

E, pela primeira vez em muito tempo, Valentina Herrera sentiu que havia encontrado algo real.

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